Portugal Start-Up: Especulação: mito ou realidade

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Especulação: mito ou realidade

Esté é um artigo escrito por mim para a imprensa em 2008. Agora, três anos volvidos, continua a fazer o mesmo sentido.


Especulação: mito ou realidade

                Desde o inicio do terceiro trimestre de 2007 que a palavra subprime domina o vocabulário dos media, economistas e políticos sendo mesmo considerada a palavra do ano pela revista “The Economist”. No entanto, como desde esta data certos produtos como as mercadorias (petróleo, cereais, ouro) têm subido a um ritmo crescente e batido sucessivos máximos históricos e consequentemente aumentando os custos de produção de empresas e o custo de vida das populações para os níveis mais altos da década, existe outra palavra que assombra o léxico de financeiros e não financeiros que tentam explicar o comportamento do mercado: especulação.
                Será a especulação um dos motivos da subida dos preços das mercadorias ou esta é uma explicação anedótica?
                Sendo a economia uma ciência essencialmente especulativa que tenta medir e prever o seguimento dos fluxos económicos e seus indicadores, poderíamos dizer então que as variações dos preços dos produtos em causa são motivados pela especulação. Apesar disso estamos perante um conceito diferente de especulação quando ouvimos falar nesta: o conceito de que certos agentes financeiros compram e vendem mercadorias não para satisfazerem necessidades produtivas (como o acto de uma refinaria de petróleo comprar contratos de futuros sobre o petróleo) mas sim apenas para obterem mais-valias. Quem se apoia neste conceito de especulação diz também que parte dos preços dos produtos correspondem ao “poder” especulativo.
                No entanto existem duas teorias (teorias e não leis porque não é possível comprovar acontecimentos dos mercados financeiros através do método cientifico) que vêm refutar a alta dos preços através da especulação: a Teoria de Dow e a Teoria do Mercado Eficiente.
                A Teoria de Dow, criada por Charles Dow nos fins do século XIX, é uma teoria que aborda a movimentação de activos financeiros e serve de base para a análise técnica. Esta possui seis premissas sendo uma delas o facto de que o mercado desconta tudo: os preços dos activos financeiros e mercadorias rapidamente incorporam nova informação assim que esta está disponível. Assim, os preços reflectem todos e quaisquer factores que afectem a oferta e procura do activo subjacente. Esta dinâmica processa-se através da oferta ou procura que existe por parte dos intervenientes sabedores dos novos factos e supõe que todos os intervenientes têm acesso á informação (não existem insiders). A suportar a teoria de Dow está a Teoria do Mercado Eficiente, desenvolvida pelo Professor Eugene Fama da Universidade de Chicado em 1960. Sabendo que preços dos produtos financeiros reflectem a informação disponível, então os investidores não devem esperar que seja normal obter rendibilidades acima da rendibilidade correspondente ao nível de risco assumido. As contrapartes não devem esperar receber mais do que o justo valor pelos produtos que compram e vendem isto é, os preços existentes a um dado momento, num dado mercado, são os preços justos e não preços com especulação incorporada. Tal coisa não existe.
                Aproveitando o exemplo do preço do petróleo (que tem vindo a bater máximos consecutivos) e sabendo que este é um mercado altamente liquido que transacciona diariamente um volume de 8 biliões de dólares é também de esperar que este seja altamente eficiente e que os seus preços incorporem toda a informação contida nos preços passados, toda a informação publicamente disponível e até informação mais privilegiada, sendo assim bastante difícil a sua manipulação. Consequentemente, os sucessivos recordes do preço do petróleo são apenas explicados por factos como o equilíbrio entre o crude produzido e consumido não permitir a criação de reservas para fazer frente a uma diminuição da oferta inesperada, a instabilidade politica dos países produtores como o Irão e a Nigéria, a queda do dólar que torna a compra de crude mais barata, o crescimento económico da China e Índia onde centenas de milhares de pessoas passaram recentemente a consumir mais (a China representa 15% do consumo mundial de energia, mais 8% que em 2005 como constatou o “chief economist” da BP, Peter Davis) e ainda outras tantas centenas de noticias com mais ou menos relevância.
                Tendo em conta estes factos, haverá ainda espaço para a especulação?


Henrique Pedro, 1 de Junho de 2008.

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